domingo, 22 de maio de 2011

O QUE É O TRABALHO DE SISTEMATIZAÇÃO

SISTEMATIZAÇÃO
MANEJO DA CAATINGA

  1. Sobre a Experiência      
O que se quer sistematizar? A Formação pela Experimentação em Manejo da Caatinga desenvolvida pelo Projeto Dom Helder Câmara (PDHC) em parceria com Associação Cultural Raízes Nordestinas

Por que é importante sistematizá-la: para dar visibilidade aos resultados da experiência, considerando-se ser essa uma atividade pioneira da instituição (ACRANE) e do território, quiçá do estado de Sergipe.

Breve resumo da experiência (onde e quando se realizou, quem participou, principais resultados)

A Formação pela Experimentação em Manejo da Caatinga é uma atividade formativa proposta pelo Projeto Dom Helder Câmara/MDA, que teve como instituição executora a ACRANE, esta sistematização retoma o trabalho dos anos 2009 e 2010. Participam da experiência agricultores experimentadores dos 06 municípios que compõe o território do Sertão Sergipano, compreendidos inicialmente em 5 comunidades e a partir de 2010 elevando esse número para 10 comunidades/assentamentos, envolvendo também técnicos e mobilizadores sociais do Programa de Assessoria Técnica Permanente do PDHC.

O trabalho tinha como proposta implantar 4 campos de aprendizagem com esses agricultores/as, técnicos e mobilizadores sociais experimentadores; realizar um processo de formação continuado em manejo da caatinga com fins pastoris bovino (formação de bancos de proteínas e áreas para pastejo), apícolas e sistemas agroflorestais e agrossilvipastoril.

Como resultado do trabalho temos um aumento das comunidades/assentamentos envolvidos, a partir do primeiro ano; os campos de aprendizagem implantados e servindo como referencia para esse território; agricultores desenvolvendo práticas agrícolas e agropecuárias sustentáveis, com base nos conhecimentos adquiridos nas formações; campos de aprendizagem com elevado nível de ganho ambiental, identificados pelo processo de monitoramento de extrato herbáceo, arbóreo e de solo e  aumento de animais silvestres, identificados pelo olhar atento dos agricultores/as.

  1. Sobre a sistematização
Para que se vai realizar a sistematização: pretende-se realizar a sistematização dessa experiência com o objetivo de que ela se configure como referência para esse território e parâmetro para os trabalhos desenvolvidos pela ACRANE e até mesmo pelo Projeto Dom Helder, com vistas uma maior apropriação de metodologias de trabalho de ganhos ambientais e manejo da caatinga, bem como objetiva disseminar a experiência na perspectiva da indução de políticas públicas sustentáveis para região semi-árida.

Que aspectos centrais da experiência nos interessa sistematizar: a metodologia do trabalho, por se tratar de experimentação pela prática, de ser um trabalho desenvolvido por uma instituição que trabalha com a arte e a cultura.

Que elementos haveria que tomar em consideração na reconstrução histórica: as formas de produção dos agricultores/as antes do projeto; os elementos de justificativa do projeto que reconstrói a realidade do Sertão sergipano, no que se refere a educação ambiental.

Que elementos haveria que tomar em consideração para ordenar e classificar a informação: Os objetivos da proposta; a metodologia; o alcance da proposta (nível territorial e de mudança de postura); executora ser uma instituição de arte e cultura.

Que elementos haveria que tomar em consideração para a interpretação crítica: Contexto do modelo de desenvolvimento do nordeste e do sertão sergipano
Que fontes de informação vamos utilizar: relatório, material utilizados nas formações, registro fotográfico, registro de monitoramento, entrevistas coletivas (em oficinas) ou individuais, legislações e publicações teóricas sobre o assunto.

Como se vai realizar a sistematização: realização de oficinas com agricultores e técnicos, pesquisas em arquivos da ACRANE, validação de dados e escrita em linguagem artística.

Produtos que devem surgir desta sistematização: uma cartilha contendo os elementos sistematizados em forma de contos, poesia e peças teatrais.

PROPOSTA METODOLÓGICA PARA REALIZAÇÃO DAS 1ªs. OFICINAS DE SISTEMATIZAÇÃO

Objetivos: identificar as formas de produção e criação dos agricultores antes do projeto de Manejo da Caatinga; entender a quantidade e a distribuição da diversidade de cultivos locais em níveis comunitários.

ACOLHIDA: apresentar-se e dizer o que criava em 2008 e o que começou ou deixou de criar em 2010 – escolher uma flor que vai levar para plantar em sua casa.

CONSTRUÇÃO DA MATRIZ
  1. Identificação de sementes
  2. Preechimento da matriz
a)      Quais são as variedades cultivadas em grandes áreas por muitas famílias?
b)      Quais são as variedades cultivadas em grandes áreas por poucas famílias?
c)      Quais são as variedades cultivadas em pequenas áreas por muitas famílias?
d)      Quais são as variedades cultivadas em pequenas áreas por poucas famílias?
 

ANÁLISE DOS RESULTADOS:
1.           Identificar os porquês dos resultados – cultivos com potencial econômico, cultivos tradicionais, uso alimentar, etc.

(obs. Serão realizadas duas matrizes – uma resgatando a situação das comunidades em 2009 e outra a partir do final 2010).

RECOLHENDO INFORMAÇÕES SOBRE TÉCNICAS DE CULTIVO E MANEJO DA CAATINGA
  1. Identificar técnicas de produção e manejo que foram utilizadas na área coletiva (campo de aprendizagem)
  2. Identificar quais delas já eram utilizadas na sua área de produção.
  3. Quais foram experimentadas após o trabalho no campo?
  4. Quais não utilizaram e porquê?

ENCERRAMENTO E AVALIAÇAO

Oficina de sistematização Assentamento N. Sra. Aparecida/ Lagoa das Areias

ASSENTAMENTO NOSSA SENHORA APARECIDA
DATA: 20/04/2011
PARTICIPANTES – H 03 M 08 J 02


1 momento - ACOLHIDA: apresentar-se e dizer o que criava em 2008 e o que começou ou deixou de criar em 2010 – escolher uma flor que vai levar para plantar em sua casa.


* A comunidade convive com uma falta de estruturas para criação permanente desses animais, estes são então criados apenas como moeda, para atender demandas específicas das famílias, estes enfrentam ainda o roubo desses tipo de animal, quando isso é mais freqüente desfazem-se dos rebanhos.

2. momento - CONSTRUÇÃO DA MATRIZ

Objetivo: identificar as formas de produção e criação dos agricultores antes do Projeto de Manejo da Caatinga; entender a quantidade e a distribuição da diversidade de cultivos locais em níveis comunitários.





3. MOMENTO: ANALISANDO OS QUADROS CONSTRUÍDOS:
A organização comunitária vem, a exemplo de outras comunidades, sofrendo problemas de perdas de variedades de sementes, é possível perceber, pelo resultado apresentado nas oficinas, que até 2008 um número maior de famílias cultivava uma variedade maior de produtos agrícolas, o resultado apresentado para o quadrante atual, que revela um número menor de famílias conservando hábitos de produção mais diversos, é também decorrente dos trabalhos desenvolvido atualmente, na perspectiva da formação e da experimentação de produção consorciada e de manejo da caatinga, entretanto, como as experiências envolve em geral um grupo pequeno de agricultores, aumenta-se a variedade, isso é percebido, sobretudo em relação a variedades forrageiras, mas diminui-se o número de famílias que os cultivam. Em contrapartida, em virtude do hábito tradicional da criação de animais de grande porte é percebido que a produção específica para alimentação de rebanho é considerada como uma produção em grandes áreas, por muitas famílias, especificamente, milho (com variedades mais produtoras de massa verde) e capim, sendo que nesses últimos anos vem se abandonado os pastos de buffel e investindo-se no capim tanzânia.

Foi considerado ainda que feijões como: o Bajem Roxa e o Preto, apesar de perpassar o gosto alimentar da região, perdeu preço e não é considerado um produto comercial, daí não ser mais um produto de interesse da maioria dos agricultores.

A gliricídia (como forrageira) é cultiva desde 1994, mas apenas nos últimos 2 anos, passou a ser utilizada como matéria para armazenamento de forragem e o seu teor protéico conhecido pelos agricultores. Em relação as hortaliças e frutas o grupo também ressalta uma situação parecida, tendo em vista que já haviam algumas famílias que as cultivava, mas é somente no final de 2009, início de 2010, que essa produção se intensifica e vira produto para comercialização.

Ao mesmo tempo em que aumenta a criação de pequenos animais como as galinhas em decorrência dos investimentos do Projeto Dom Helder Câmara em estruturas de criação semi-extensiva, diminui-se as experiências de criação regular de ovinos, em decorrência dos roubos e da falta de estrutura (cercas de 8 fios) nas divisões dos lotes.

RECOLHENDO INFORMAÇÕES SOBRE TÉCNICAS DE CULTIVO E MANEJO DA CAATINGA
  1. Identificar técnicas de produção e manejo que foram utilizadas na área coletiva (campo de aprendizagem)
  2. Identificar quais delas já eram utilizadas na sua área de produção.
  3. Quais foram experimentadas após o trabalho no campo?
Quais não utilizaram e porquê?

O grupo identificou como técnicas utilizadas no Campo de Aprendizagem Manejo da Caatinga: Roço seletivo; aração animal; plantio consorciado; broca com picotamento da matéria orgânica; enriquecimento da caatinga com introdução de mudas nativas; bacia e cobertura seca para plantas introduzidas; adubação verde; cerca verde para quebra vento; poda de condução e produção para frutíferas.

Destas foram utilizadas pelos assentados: cobertura verde e seca; quebra vento; podas; plantio consorciado em leiras; arado animal em pequenas áreas.

Não utilizaram o arado animal em grandes áreas pela falta desses equipamentos, apenas duas famílias no assentamento possuem suas próprias estruturas de aração.

Ressaltou-se ainda que as podas contribuíram para o aumento da produção, que o retorno da aração animal é importante, tendo em vista que as comunidades o perderam frente as políticas do governo com distribuição de sementes e horas de trator para o preparo do solo.

Ressaltamos a importância dos trabalhos de Manejo da Caatinga, Bancos Comunitários de sementes, incentivo a técnicas de produção menos agressivas ao solo (aração animal, roço seletivo, broca com enleiramento da matéria orgânica) tendo em vista gerarem autonomia produtiva dos agricultores, além de garantirem a sustentabilidade ambiental, consideramos que uma crise mundial de alimentos hoje é capaz de gerar uma incidência de fome nas áreas rurais, que investem na criação de grandes animais, como as duas comunidades trabalhadas, tendo em vista que grãos para alimentação humana são preteridos a essa atividade e que, portanto essas comunidades podem está completamente a mercê da política de mercado, tipo um aumento do dólar inviabiliza sua produção, etc.

Oficina de Sistematização Assentamento Nova Canadá

                                                 ASSENTAMENTO NOVA CANADÁ
DATA: 19/04/2011
PARTICIPANTES – H 05 M 04 J 02


1 momento - ACOLHIDA: apresentar-se e dizer o que criava em 2008 e o que começou ou deixou de criar em 2010 – escolher uma flor que vai levar para plantar em sua casa.



*basicamente as famílias mantém uma regularidade do tipo de criação, apenas dois agricultores incorporaram novas criações nos últimos anos.

2 momento - CONSTRUÇÃO DA MATRIZ

Objetivo: identificar as formas de produção e criação dos agricultores antes do Projeto de Manejo da Caatinga; entender a quantidade e a distribuição da diversidade de cultivos locais em níveis comunitários.

 











OBS – ALGUMAS ESPECIES SE PERDERAM PELO INCENTIVO AO PLANTIO DE OUTRAS SEMENTES O QUE GEROU UMA PERDA DE PREÇO NO MERCADO, UM EXEMPLO BEM DISCUTIDO PELOS AGRICULTORES,  FOI EM RELAÇÃO AO  FEIJÃO BAJEM ROXA E CACHINHO QUE PERDEU ESPAÇO PARA O CARIOQUINHA.


ANALISANDO OS QUADROS CONSTRUÍDOS: é possível perceber, pela análise dos resultados em cada quadrante que o Assentamento Rural Nova Canadá, vive uma perda das experiências de multicultivos, quando estes começam a ser uma dinâmica apenas de um grupo pequeno de famílias, principalmente no que se refere à produção de grãos, onde há uma visível substituição das (milho híbrido e catingueiro). Ao mesmo tempo, acredita-se que em decorrência dos trabalhos desenvolvidos pelo Projeto de Manejo da Caatinga, aumentou-se o número de espécies, em especial forrageiras, que um conjunto de poucas famílias vêm experimentando em suas atividades produtivas. Dessa forma, acreditando-se na evolução em perspectiva crescente da experiência, é possível ir se enfrentando o problema da perda de variedades. Outra discussão travada pelos agricultores está intrinsecamente ligada a política agrícola do estado, baseada na distribuição de sementes e não na composição de bancos comunitários de sementes e na desvalorização dos processos de produção e armazenamento e de produção pelos agricultores, “o agricultor produz grãos” as sementes são fruto de trabalhos acompanhados pelas empresas de Assistência Técnica e de Pesquisa e é realizada, quase que exclusivamente, por grandes produtores.

A desvalorização econômica de algumas espécies, bem como os incentivos fiscais em determinadas regiões do país, que facilita a entrada no mercado local de grãos para alimentação bem mais baratos, também faz com que essa produção seja preterida a de alimentação para os rebanhos, tendo em vista que o leite ainda é, localmente, o produto de maior facilidade de comercialização. Exemplo disso é a pouca produção de feijão, tendo em vista que mercado local não absorve e/ou de que custo de produção é relativamente alto, diante de uma oferta extensa do produto por outras regiões do país. Assim, em casos extremos, há agricultores que já deixaram de produzir esse produto para subsistência, comprar é mais barato. Portanto reverter isso, para além de uma postura ideológica exige uma postura política.

Realizada essa etapa da oficina, foi identificado também as técnicas de cultivo e manejo da caatinga já experimentadas pelos agricultores.


RECOLHENDO INFORMAÇÕES SOBRE TÉCNICAS DE CULTIVO E MANEJO DA CAATINGA
  1. Identificar técnicas de produção e manejo que foram utilizadas na área coletiva (campo de aprendizagem)
  2. Identificar quais delas já eram utilizadas na sua área de produção.
  3. Quais foram experimentadas após o trabalho no campo?
  4. Quais não utilizaram e porquê?

O grupo identificou como técnicas utilizadas no trabalho de manejo da caatinga: o rebaixamento para qualificação de extrato de pastejo; raleamento para maior abertura e produção de herbáceas para pastagem, picotamento da matéria raleada e rebaixada, não realização de queimadas, adubação com composto orgânico, enriquecimento da caatinga com introdução de mudas nativas, diversificação de cultivos, consorciação.

No trabalho dos agricultores já foi possível identificar que, apesar deles utilizarem o trator, as queimadas já não eram práticas comuns nessas áreas e já experimentavam áreas de pastejo raleada.


Os agricultores consideraram que já realizaram algumas atividades, como o plantio sem derrubada total das árvores, raleando a área; introdução de palma forrageira em área manejada; enriquecimento da caatinga; multicultivos associada à recuperação da caatinga e trabalho de produção de mudas nativas, aroeira.

Alguns agricultores não conseguiram realizar nenhuma das experimentações propostas pela falta de mão de obra, o Assentamento tem dificuldades com trabalho coletivo e portanto não consegue fazer isso com mutirões, ou em áreas coletivas.